quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Sobre aspiradores de pó e outras coisas


       Durante os meus mais de 30 anos aprendi a fazer muitas coisas. Já escrevi duas monografias, uma dissertação de mestrado e meia tese de doutorado. Aprendi, também, a escolher meias, tarefa tão complicada quanto escrever tese.  Mas, mesmo assim, me falta habilidade para realizar as mais prosaicas atividades do nosso cotidiano.
Admiro muito, por exemplo, todas as pessoas que sabem ler um cardápio. Acho fantástica a cara de quem ganha como um gari e se comporta como um Eike Batista quando o assunto é colocar óculos, distanciar o cardápio, olhar se tem um amigo próximo e, no final, pedir uma água mineral. 
Também nutro um certo respeito por todos os seres iluminados que trocam cartuchos de impressora como se essa fosse uma atividade a ser praticada com tranqüilidade por todo aluno da educação infantil.. Confesso que não sei trocar cartucho de impressora.
Nos últimos dias tenho me dedicado a atividade paralela de domar um aspirador de pó ensandecido. Quando pensei que já tinha passado por tudo nessa vida, me surge esse aspirador de pó. Devo ressaltar que o comprei por uma carência emocional mais pura do que whisky escocês. Olhei o catálogo de promoções do Americanas.com  com a dedicação de um ginasta chinês e vi que nada nele me faltava. O que faltava ele não tinha.
Comprei o aspirador pensando que seria algo fácil de usar, mas vi que o mundo é complicado, as pessoas são más e os aspiradores de pó são seres indomáveis que tem pouca utilidade. Não nasci para os aspiradores de pó. Assim como não nasci para o motivo maior desse post...

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Sobre qualificações, BBBs e paixões fora de hora

      Faltam-me frases para começar um texto. Todas as palavras que habitavam minha cabeça foram colocadas no texto de qualificação da minha tese de doutorado. Aliás, penso eu, que depois de exatas 109 páginas, carregadas de poesia (sim, meu grupo de pesquisa cobra poesia. Acho que por isso escrevi algo que me orgulho) tenho um texto de qualificação.
    Um texto que em pouco tempo será avaliado por 5  "pós/hiper/mega/uber doutores" e, desde já, sei que vão massacrá-lo, assim como o time de basquete dos Estados Unidos faz quando joga contra Angola, algo do tipo, 220 x 49. Mas fiz o que me pediram. Li uma porrada de caras que gostei, outros foi pura obrigação. Tomei uma porrada de cerveja skol beats pra escrever. Teci fios, construi redes, procurei entender a tessitura...eu só queria qualificar. Sei que mereço.
     E a tarefa não foi fácil!
No meio ainda me ainda aparece um BBB. Assim como tenho uma queda por uma cerveja, tenho uma certa fixação em reality show (não faço standup, mas poderia dizer coisas ótimas sobre o que vejo nesse tipo de programa. Da mistura de gente super malhada, pouco inteligente e feliz em demasia, o que poderia mesmo sair? Um standup em ritmo alucinante. Pobres comediantes que  não sabem entender uma piada pronta...)
      Sobre paixões eu não falo porque é vida particular. Vai que um dia me torne um BBB?

sábado, 29 de janeiro de 2011

Sobre fugas e ossos quebrados


A felicidade bateu a minha porta. Eu sei que por trás do olho mágico alguma coisa estava reservada para mim. Mas como um ser que tem medo de dirigir, trocar cartucho de impressora e ligar forno de fogão quando o botão é automático, eu não abri a porta.
            Senti que ainda não era a hora (nem sei se “a hora” é algo que realmente exista), mas tive medo. Tive medo de sair da zona de conforto. Tive medo da cor das minhas meias não estarem combinando com a cor dos meus sapatos e, pra variar, preferi não arriscar. Tive medo de começar a conversar e, na terceira frase, citar autores que a felicidade não conhece e ela fugir de mim como as palavras que procuro todos os dias no dicionário.
            Aos poucos sinto que não nasci para a felicidade plena. Sinto, ainda, que ela custa muito. Talvez algo que eu não consiga oferecer. Já tenho muitos ossos fora do lugar, neurônios consumidos por diversos motivos, órgãos que foram se deteriorando pelo consumo excessivo de álcool e lanches fastfood. Acho que a felicidade que bateu na minha porta merece algo melhor.
            Percebo, ainda, que a felicidade é algo que pede celular, endereço, tenta trocar email, saber o perfil do Orkut. Sinto que a felicidade busca tudo o que mais abomino: intimidade em excesso. Mais uma vez preferi a fuga.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

E se...

Eu sou um cara muito ruim para interpretar sinais. Eles me são dados a todo momento, jogados na minha cara, aparecem de todos os modos e jeitos, mas eu insisto em não querer ver. Pareço ter um dom para para "fazer de conta que tudo está bem", que "a vida é assim e todo mundo erra". Sou um fracasso! Acho que nem merecia ainda viver diante da minha incapacidade para resolver pequenos problemas. O mundo não foi feito pra gente como eu.

Sinto que tenho coisas para resolver há, no mínimo, uns quatro anos. Talvez tudo poderia ser melhor se a todo tempo não ficasse pensando: "e se..." São apenas três letras que possuem o peso de um piano usado pela Orquestra Sinfônica de Estrasburgo. "E se eu me arrepender". "E se não for mesmo o que estou pensando". "E se a mudança não for boa". "E se eu esquecer de pagar a conta de luz, pedir água mineral, deixar todas as luzes da casa acesa por três ou quatro dias".

E se...

Mais uma vez chegou dezembro. Na minha vida nada mudou. Todos questionamentos feitos agora, foram feitos também nos dezembros de 2007, 2008, 2009 e 2010. E se...quando 2011 chegar tudo for diferente?

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Como pode alguém sonhar com o que é impossível saber

Depois de uma década de formado, volto a ouvir "los hermanos". Volto a ficar viciado, refletindo sobre às perguntas que me eram feitas naquele momento da minha vida onde eu só queria sonhar. Nos fios que puxei, nas redes que teci, nos caminhos que trilhei ao caminhar, tinha esquecido  dos barbudos.
Tinha esquecido do quanto é bom seguir os caminhos apontados pelo vento. Talvez, na busca de títulos, tenha esquecido do bem que faz lembrar de quem lembra da gente na fila do pão. De repente me bateu saudade. Mas o natal está chegando e, com ele,  a hora de voltar pra casa.
Talvez chegue a hora de dizer palavras que ficaram esquecidas na falta de créditos do celular. Talvez faltasse tempo entre um capítulo da tese, uma bronca da orientadora e o mau humor de um aluno em busca do caminho apontado pelo vento.
Mas o esforço pra lembrar é vontade de querer.
Então, vamos esperar dezembro chegar!

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

É FESTA!

Eu sempro acho que não vai dar tempo.
Eu também sempre acredito que sempre pode ser melhor.
Eu poderia ter lido um livro a mais;
Escolhido uma palavra mais bonita para fechar um determinado parágrafo;
Quem sabe tuitado menos;
Orkutado menos;
Mas, apesar de todas as limitações, o primeiro parágrafo da tese ficou pronto.
E, agora, eu não sei se comemoro;
Não sei se corro mais rápido que o tempo e começo o segundo;
Mas sei que cumpri a primeira meta;
E tô feliz pakaralho por isso.

Sobre o calor e o voto secreto

Desisti de fazer escolhas. Durante muito tempo eu desejei o frio como um americano do Sul deseja férias no Caribe. Mas conheci um pouco do frio e não curti muito. Disse pra mim mesmo que queria mais calor. Prometi que quando o calor voltasse eu iria ficar feliz. Afinal de contas, poderia tomar banho sem reclamar do frio. Teria mais motivos pra tomar cerveja. Poderia, quem sabe, achar motivos para trocar os meus óculos de sol que estão gastos. Mas estou conhecendo o calor em sua potência máxima e, pra variar, também não curti.

O calor senegalês que tem feito no Acre nos últimos dias não é uma coisa pra humano. Se tivesse feito um transplante de célula tronco com um habitante do Zimbábue acostumado a conviver com uma temperatura na casa dos 50 graus ai, quem sabe, eu suportaria. Mas não está dando.

Como se não bastasse o calor, ainda tenho que conviver com uma porrada de gente que fica a todo momento perguntando em quem vou votar. Estou me sentido naquela festa que o Big Brother Brasil faz nas noites de sábado e a pergunta é só uma: em quem você vai votar pra sair da casa? Eu sei que a vida é um BBB, mas o voto ainda é secreto e, nesse caso, não votaremos para escolher quem vai sair da casa, mas quem vai entrar, e isso nem sempre é fácil... 

sábado, 11 de setembro de 2010

Por mais Menina de Óculos

Ao longo dos últimos três anos, tenho nutrido o saudável hábito de visitar diariamente a morada virtual da Menina de Óculos. De visita em visita, já gargalhei em alto e bom som das suas verdades ditas com um humor dos melhores. Silenciosamente, para manter a lisura do processo, já comemorei algumas de suas vitórias.

Acredito que o All you need is Love, lema do seu blog, deveria ser adotado como plataforma de governo por todos os candidatos ao cargo de presidente do país. O Brasil ficaria mais humano e as falsas promessas não fariam mais sentido.

Mas há uma semana ela entrou em recesso. Confesso que esse hiato não faz bem para a minha vida virtual. Fica faltando humor, belas imagens, frases que nos fazem pensar, fica faltando muito. Mas, como um bom menino de óculos que sou, estarei esperando por sua volta.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A aula de Pilates e a flexibilidade que não tenho

Até a última quarta-feira, o Pilates era para mim uma prática só feita por aqueles que estão habituados a comer em self-service de restaurante natural. Sei que uma coisa não tem nada haver com outra, mas sempre achei que pilates era a yoga revisitada. Mas eis que uma coluna precisando de ajustes me fez conhecer tal prática esportiva ( não sei se essa é a melhor expressão).
E lá, eu me encontrei com um mundo novo. Um espaço que deve ser a sessão da tarde das atletas de Ginástica Rítmica Desportiva da Bielorrusia,  mas pra mim foi sofrimento em sua mais perfeita tradução. Fiquei intrigado como a senhora do meu lado, na casa dos 50 e tantos, colocava o umbigo na testa, a mão no pé, a cintura na cabeça e ainda dava um sorriso reconfortante pra mim, que só a falava ao professor que não conseguia  terminar os exercícios. Diante da minha incapacidade, o nosso diálogo foi quase infantil, era como se eu tivesse aprendido a contar só até 5.
Ele: faça 3 de 12 desse aqui.
Eu: 1......2........3.......4........5........posso mudar?
Ele: tente essa aqui 3 de 12
Eu:   1......2........3.......4........5........posso mudar?
Era tudo muito doido. Fora que era muito leeeeeeento, devagaaaaaaaar, algo que não consigo acompanhar. Sou ansioso desde 1975 e não consigo diminuir a velocidade, apesar de saber que preciso.
Mas hoje continuarei tentando. Quem sabe não chego até o 10 e aprendo a respirar. Só sei que o pilates me mostrou mais uma coisa que não sei. Assim como não sei dirigir carro, andar de bicicleta, usar compasso, trocar cartucho de impressora, também não sei respirar. Para minha sorte, tenho um monte de coisas para aprender na vida. Triste de quem acha que sabe de tudo.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Aviso

Entre um parágrafo e outro da tese, me dei o direito na madrugada de domingo pra segunda de me deixar levar pelos belos versos do livro "Para não dizer adeus". Lya Luft me falou verdades que gostaria de compartilhar com vocês.

AVISO

Se me queres amar,
terá de ser agora: depois
estarei cansado.
Minha vida foi feita de parceria com a morte:
pertenço um pouco a cada uma,
pra mim sobrou quase nada

Ponho a máscara do dia,
um rosto cômodo e simples,
e assim garanto minha sobrevida.

Se me queres amar,
terá de ser hoje:
amanhã estarei mudado.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Sob nova direção?

Nessa vida onde os títulos acadêmicos são tão valorizados, acho que vou cumprindo bem minha missão. Fiz mestrado, faço doutorado e tenho uma porrada de outros certificados que orgulham o meu currículo lattes. Mas pra ser feliz ainda me falta uma coisa.

E não estou falando aqui de encontrar um alguém especial que, entre um carinho e outro, vá me ajudar na leitura do livro Pelas Mãos de Alice. Nem de um ser humano encantado, disposto a tecer comentários sobre o conceito de entrelugar do Bhabha no meio de uma cerveja, enquanto fazemos planos para às próximas férias. Acho que são poucas as pessoas capazes de mudar tão rápido de assunto durante uma conversa quanto eu.

Eu queria coisa simples. Eu só queria ser mais uma pessoa que sabe andar de bicicleta. Eu queria deixar de ser ponto de referência. Eu queria muito deixar de ser “aquele dali que nunca aprendeu a andar de bicicleta”. Penso que seria muito bom sair por ai desfilando equilíbrio pelos parques da cidade. Sinto uma certa inveja de todas as pessoas que conduzem uma bicicleta e ainda dão tchauzinho. Quando vejo uma cena dessas, tenho a sensação que faço parte da seara dos excluídos, me sinto um eleitor do PCO (alguém conhece um eleitor declarado do PCO?)

Acho que quem sabe andar de bicicleta, dirigir carro, sabe também conduzir melhor a sua vida. Talvez me falte isso, aprender a conduzir melhor o meu destino. Desatar certo nós. Sentir uma bem vinda sensação de liberdade. Quem sabe...

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Carta nº2

Querid@as leitor@as

Venho informar que não as esqueci e nem deixei de escanteio o meu desmemoriado blog, mas devo confessar que os dias não estão fáceis. Os dias difíceis colaboram para que a minha pouca criatividade desapareça de vez. O calor que faz em Rio Branco também prejudica o meu roto cotidiano. Tenho passado tanto tempo tomando água e banho que falta tempo para outras coisas. A fumaça que tem tirado o sossego dos acreanos, também tem me deixado irritado. Talvez ela esteja me impedindo de ver ao longe. Nesse momento era tudo o que eu queria.

   Termino por aqui, prometendo voltar e esperando dias mais felizes e temperaturas mais amenas
 Wagner

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Carta n° 1


Sinto que estou precisando voltar a escrever cartas. Talvez esteja precisando dividir, em um mundo que não está acostumado com isto. E, é assim, reconhecendo minha necessidade, que começo a minha primeira carta para 7 declaradas leitoras (se bem que, talvez, nem todas frequentem minha morada virtual todos os dias). Quero dividir com vocês, minhas primeiras vivências na volta ao Acre.

Entre afagos verdadeiros e outros nascidos sob o signo da vida profissional, começo a me (re)pertencer ao lugar de minha morada física.  Freire nos ensina que é onde pisamos que nos formamos. Concordo com o nobre barbudo, pois sinto que tenho me construído bem no espaço que me acolheu. Hoje, voltei pra casa feliz, uma  coisa que nem sempre acontece.

Gostei de ver o sorriso no rosto de alguns alunos ao me reencontrar, em claras demonstrações de carinho. Vi que, a minha opção por não dar aula, mas compartilhar histórias de vida, tem me aproximado de muitos e, para minha sorte, me distanciado de poucos. Talvez minhas escolhas teoricasmetodológicas (quanta pretensão?!) tenham me distanciado dos que realmente devesse ficar longe. Penso, ainda, que muitos dos meus alunos ainda desejam encontrar na universidade uma prolongação da escola, coisa que acho muito pouco.

Vejo a universidade como espaço de experiências, onde você pode caminhar, às vezes se perder, em outras se encontrar para, quem sabe lá na frente, se perder e se encontrar de novo. Mas muitos são por demais
novos, e preferem apenas se encontrar, sem dá uma oportunidade ao acaso. Entendo que se deixar afetar pelas surpresas, é mesmo uma tarefa difícil. Um  caminho de pedras não é para ser percorrido por qualquer um, a maioria deseja apenas um caminho de brisas...coisa que nem sempre é possível. Mas, repito, eles são jovens.

Meus 35 anos me deixaram marcas, me ensinaram lições e, nos desenhos de uma mal escrita cartilha de caligrafia, continuo a acreditar em outro mundo. Talvez que não seja mais escrito por nós, mas por aqueles que formamos. Um mundo que, de preferência, tenha pessoas mais conscientes, para que a gente não precise sofrer tanto com a fumaça que nessa época do ano muda a rotina do povo acreano.

Termino aqui acreditando, sempre, que o amanhã será melhor

Wagner

domingo, 15 de agosto de 2010

Da janela da alma

A minha amiga Nádia Falcão, futura professora doutora da Ufam, me confessou que dá boas gargalhadas ao ler o meu desmemoriado blog. Fico feliz em fazer à Nádia sorrir. Sei que, apesar dela ser uma das melhores pessoas que conheci em 2010, ela é obrigada, em certos momentos, a ver e ouvir coisas que não gostaria.

Apesar de não ser cantora/modelo/atriz, Nádia habita um espaço onde a vaidade é regra. Onde se fala sem saber direito o que se está falando, pelo simples prazer em se fazer notar. Tanto eu como a Nádia estamos fora dessa.

Nós gostamos mesmo é de apreciar a bela paisagem que nossa “particular janela” nos propicia. Nós curtimos ver o céu surgir azul, em manhãs com um calor que convida para uma ida à praia, mesmo sem a gente poder ir. De ver o movimento da barca. Nós gostamos de dividir momentos de silêncio, nossa particular e bem sucedida estratégia de defesa. E, mais que tudo, nós gostamos de fazer análise sobre os outros, mesmo sem título de psicólogo.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Escolhendo sem saber escolher. Mudando sem saber mudar

Eu sou o tipo de pessoa que não gosta de a todo tempo está fazendo escolhas. Acho que nunca faço as corretas e, quando faço, ainda me resta dúvida. Vida boa é a de criança, que só aponta com o dedo o que quer e tem a decisão como tomada. Sem esse negócio de contar até dez, de pensar nas consequências, nem fazer balanço de perdas e ganhos.

Talvez seja pela dificuldade em escolher, que tenho tanta dificuldade para fazer malas. Não sei escolher entre o passado que vira futuro e aquele passado que, foi presente e pra sempre será passado. O conceito de passado elástico não me entra pela cabeça. E como escolher as lembrança que irão ocupar aquela imensa gaveta das memórias? Aquela que fica escondida, em silêncio, sem causar nenhuma tensão, mas que de repente surge ou ressurge mostrando o seu poder para nos tirar do caminho que tentamos seguir sem sobressaltos. Nossa sorte é que a bagagem das lembranças não paga excesso de peso.

Como escolher do vivido aquilo que ficará para trás? Como apagar aquilo que está na pele como tatuagem? Como tirar poeira daquilo que fica melhor escondido entre as inúmeras apostilas do tempo de faculdade? Viver, infelizmente, não é como escrever um texto. Os professores de redação nos ensinam a escolher as palavras menores, a tirar os adjetivos, a escrever parágrafos curtos. Mas o movimento de escolha que a vida nos impõe não permite regras tão objetivas

Neurath nos diz que mudar a teoria, em uma pesquisa, é como reconstruir um barco, tábua a tábua, em alto mar. Talvez fazer mudança seja isso: juntar lembranças, uma a uma, vivendo.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Pagando uma dívida com São Luis do Maranhão


De todas as capitais do Nordeste, até a última quinta-feira eu conhecia sete. Já tinha me encantado com as belezas de Recife, me deixado seduzir pelos encantos de Maceió, vivido  inesquecíveis dias de férias em Fortaleza e me deixado levar pela vida calma de Aracajú. Também já morei em Natal e João Pessoa. Depois de um périplo regado a muito sol e praias pelas capitais nordestinas, ainda não tinha visitado Teresina e São Luis e tinha que saldar essa dívida.

A capital do Piauí não possui praia, o que nunca me insitigou a visitá-la. Talvez tenha que encontrar um congresso para conhecer o estado. São Luis me parecia distante, meioNortemeioNordeste, mas despertava e muito minha curiosidade. E foi munido de pouco dinheiro e muita curiosidade que rumei para a capital dos maranhenses.

Sinto que demorei muito para conhecer o Centro Histórico da cidade. As fachadas revestidas por azulejos portugueses são encantadoras. As ruas apertadas e cheias de turistas estrangeiros munidos de máquina fotográfica são um passeio que lembram um labirinto cheio de histórias, com desbravadores que exploram um lugar pouco conhecido pelos próprios brasileiros.

As praias não são tão bonitas quanto as de Alagoas ou do Rio Grande do Norte, mas a água é de temperatura agradável e convidam para um banho de mar. A cerveja no Reviver deve ser tomada como se fosse um ritual. Deve-se apreciar a boemia do local e a história que a todo momento desfila para nossos olhos.

Fiquei encantado pela forma como o Maranhese da capital defende sua cultura. Fui para uma festa chamada de "a morte do boi". O evento marcava o fim das comemorações do período junino, que no estado tem no bumba meu boi sua maior representação. De morte a festa não lembrava nada e só acabou nos primeiros raios de sol.

Achei interessante o tal do refrigerante Jesus. Um suco de groselha que vende mais que coca cola. Confesso que não aprovei o sabor, mas os ludovicenses tem o Jesusinho como uma religião. Os maranheses também possuem a estranha mania de levar os carros para dar uma volta na areia da praia. Vi inúmeros carros ainda sem placa estacionados ao lado das barracas. Esse hábito também gera uma poluição sonora que, confesso, me deixou um pouco irritado. É muito calypso e aviões do forró pra pouco oceano.

domingo, 1 de agosto de 2010

Saudade mata?

Recentemente vi na tv uma matéria que dizia que saudade em demasia poderia matar. Não sei se saudade mata, pois se ela matasse eu já teria subido o telhado há muito tempo e talvez não estivesse mais aqui para desvelar minhas histórias (amargas?) ou presentear os colegas com os erros do meu português ruim.

Sinto saudade de muita coisa, em geral dos "eternos instantes" que nos mantém vivos. Sinto saudade de ir pra escola em dias de muito frio e apreciar a paisagem da minha cidade, que nesses dias ficava linda. Sinto, também, saudades de imaginar o que estaria fazendo quando tivesse trinta anos. Ficava a pensar em que cidade iria morar, no que estaria trabalhando. Com a mente fértil que tinha, pensava em alguns momentos em ir pra Nasa, em outros eu só queria ter a oportunidade de nada fazer.

Mesmo nos devaneios de uma criança com pouco mais de dez anos, nunca pensei em ser médico, advogado ou engenheiro. Achava que todo mundo queria ser isso e eu tinha de querer algo diferente. De noite de Natal, festa de são joão eu já nem falo, pois essas datas enchem qualquer pessoa de saudade.

Sinto, ainda, muitas saudades da época de faculdade. Fico até hoje lembrando das inúmeras conversas que tecia com mais dois amigos todas às terças-feiras depois da aula de Antropologia. A gente não queria mudar o mundo. O nosso único plano era encontrar um jornal que nos pagasse mil reais. A nossa ambição era quase nenhuma, mas tinhamos um plano.

Mas sinto saudade mesmo é da época que não era notado, que ninguém sabia da minha existência. Sinto saudades do tempo em que a minha opinião ou a minha presença tinha a mesma importância de uma samambaia no canto de uma sala. Hoje percebo que já não é mais assim. Uma simples twittada desse humilde blogueiro em início de carreira, às vezes gera comentários que dariam uma tese. E tudo o que eu mais queria era só responder a pergunta da baleia: o que você está fazendo agora? Bem, agora eu acordo pensando na minha tese de doutorado, almoço lendo textos quase incompreensíveis e durmo de olho na próxima atualização do meu currículo lattes, comemorando como atleta olímpico a cada novo artigo aceito para um congresso. É assim o meu cotidiano, e eu nada posso fazer.

Um colega falou que eu só twitto assuntos que fazem referência ao doutorado ou a coisas que não dizem respeito a ninguém. Mas, ai, eu fico a pensar: o que posso fazer se com pouco mais de 30 anos eu já tenho uma vida academicamente bem resolvida? O que posso fazer se a data do lançamento do próximo clip da Lady Gaga não me traz nenhuma preocupação? Se a data de lançamento da próxima coleção de uma grife famosa não me inspira nenhuma curiosidade? Ou se a vida dos colegas de trabalho não me motivam twittadas em ritmo alucinante? Se a vida de bailarina não é fácil, a de pesquisador e professor universitário, também não.

Isso quando não inventam de fazer mitocrítica daquilo que nem crítica merece. Ai a coisa complica de vez. Tá bom que não sou nenhum candidato ao posto de comediante do CQC, mas a ter uma escrita amarga, já é um pouco de mais. Eu gostaria de escrever sobre um mundo de maravilhas, mas desconheço esse lugar. Além de conhecer a Índia, preciso também comprar um passagem para a Islândia.

Se eu me construo a partir do lugar onde piso, eu só poderia mesmo ser um pouco amargo e ter uma escrita idem. Vejo injustiças sociais desfilarem todos os dias na minha frente. Assisto a coisas horríveis na TV. Moro num país onde a educação é problema, a saúde é um problema maior ainda, segurança, desemprego...é problema social que não cabe aqui. Será que vendo e vivendo isso tudo, eu poderia ver a vida da mesma forma que um habitante de Reykjavík? não dá, desculpa ai.

domingo, 18 de julho de 2010

Do frio que não senti

O peso na consciência que me acompanha todos os dias, resolveu aparecer de novo. Agora, não pelas crianças que passam fome (essas me sensibilizam diariamente), nem pela jovem senhora de mais ou menos 30 anos que hoje jogou uma lata de coca cola pela janela da barca Rio-Niterói e seguiu como se nada tivesse acontecido (dessa eu sinto pena e temo pelo futuro do planeta onde os filhos e netos dela irão viver). Também não foi pelos crakudos que aos poucos tomam de assalto a praça da Cantareira (me acho muito insignificante para resolver o problema deles, mas confesso que toda vez que vejo sinto muita pena).

Hoje de novo me veio aquela sensação de que nunca estou no lugar certo quando as mais fantásticas experiências acontecem. As festas que vou e fui nunca foram as melhores. Mas as que faltei, sempre foram as mais fantásticas, mais descoladas, onde sempre estavam aquelas pessoas que nunca são vistas na noite. Nunca vi os melhores filmes. Assisti muitos, mas nunca aquele que aquela pessoa disse que assistiu e, apartir desse momento, uma nova página na história do cinema começa a ser escrita. Também nunca li os melhores livros, nunca li e nem escrevi os melhores textos.

Agora, não vi a maior onda de frio da história do Acre. Com todo mundo que conversei, o assunto era um só: o Acre era o novo Alaska e eu não estava lá pra ver. Pessoas que nunca tomaram cachaça resolveram colocar o preconceito de lado e se jogar com garra na mardita para aplacar o frio que assolava a Amazônia Sul-Ocidental. Todos os estoques de roupa de frio sumiram como pipoca de cinema no lançamento de filme da saga Crepúsculo. O eixo da terra estava mudando e eu, mais uma vez, não estava como testemunha ocular da história.

Para me recuperar, no entanto, só não quero presenciar a maior onda de calor da história do Acre, o calor de todo dia já me deixa feliz...

Eu não digo eu te amo depois da primeira taça de sorvete haagen daz

Acredito que algumas frases na vida tem o peso de um container. Talvez seja por isso, que eu não costume sair por ai distribuindo "eu te amo". Pode ser um dos inúmeros defeitos que carrego nessa bagagem da vida que já me faz pagar excesso, mas desconfio das pessoas que se autointitulam melhores amigos de infância desde a época que brincavam de massinha depois da primeira taça de sorvete ou de três ou quatro chopps.

Não acredito no riso muito fácil, nem nas declarações de amor que são cópias de cartões do smilinguido. Depois de 35 anos, minha cápsula protetora resistiria uma ida à lua, quanto mais uma falsa verdade dita com a cara de uma mentira completa. Assim como engenheiro acredita na base sólida do prédio, acredito que qualquer relação, incluíndo as de amizade, são construídas com o tempo, com a vivência de certas experiências que só com o tempo você pode guardar na memória.

Não sei bem porque, mas sinto que nem todas pessoas estão preparadas para dizer "eu te amo, meu amigo" de forma verdadeira. Acho, até, que algumas pessoas deveriam ser proíbidas de falar por ai tal frase. Quando você distribui um "eu te amo" numa hora indevida, quando chegar a hora certa ele já não terá siginificado, perderá o valor.

Nessa minha peleja dolorosa, tratando as palavras como "peixes abissais", vejo muito peso no que falo e ouço. Algumas frases não podem ser desgastadas. Dizer eu te amo não é como pedir um pãozinho na padaria de manhã ou trocar de camisa quando ela não combina com a calça.